terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009

Histórias de cabeleireiro

Clara Cândida Carícia era anfitriã do cabeleireiro da esquina. Recebia, sorria, lavava as estranhas cabeleiras miseráveis que lhe passavam pelas mãos e, muitas vezes, pelo nariz, tal era o cheiro nauseabundo que advinha do estranho hábito de muitas criaturas em evitar o banho.

A aliteração do nome vinha-lhe da mãe, de onde, aliás, sempre vêm os grandes nomes. Dora Deolinda Damásio (mais tarde casada com o João Carícia a quem nunca perdoou a perda da aliteração por via matrimonial) quis um nome impressionante para a sua cachopa…ou um pesadelo, como retaliação do pesadelo de nove meses a que foi sujeita.

Clara sempre viveu na Brandoa, claro. Foi lá que foi nascida e criada, entre quatro paredes, um tecto e um chão constantemente tremeliques. Afinal, o lúgubre 1º andar ficava mesmo por cima do laboratório de um cientista louco que se dedicava a fazer fricassé de polvo em máquinas estrambólicas.

Clara sobreviveu à infância e à adolescência com um sorriso nos lábios, uma argola entre os buraquinhos do nariz e um horror terrível ao cheiro a polvo. Ah e ganhou o estranho hábito de usar sapatos com saltos de 14,3 centímetros (nem mais, nem menos), saia de ganga de parco tecido e topzinho de alças a mostrar o que a natureza (ou, tal como na aliteração, a mãe) lhe deu de melhor.

A nossa aprendiz de cabeleireiro tem um caso semi-sério com Leonel Cagueirão. Aprendeu com os erros da mãe e soube manter a aliteração, apesar de jurar a pés juntos que não foi esse o motivo que a fez largar Zé Finório.

Hoje, a 24 de Fevereiro, Cagueirão entrou-lhe pelo cabeleireiro adentro, agarrou-a pela cintura e espetou-lhe um beijo capaz de inundar de baba todas as xôs dônas dôndocas da Brandoa que estavam à espera do corte de cabelo capaz de lhes mudar a vida…ou, pelo menos, a carantonha infeliz de “meio do mês e já sem ordenado para gastar”.

Clara sorriu, sabia o porquê da alarvice no meio do salão de frissé e coloré.

“Conseguiste, meu pavão rechonchudo?”, sussurou.

“Boneca, hoje sou o homem mais feliz do mundo”, confirmou Cagueirão.

Leonel tinha conseguido o seu sonho desde piqueno. Era agora um feliz bombeiro da corporação da Amadora.

“Finalmente vou poder salvar um gatinho do cimo da árvore”, concluiu, com lágrimas nos olhos.

Clara sentiu também as lágrimas a escorrer pela cara, caindo no rego dos seus peitos copa E. Ela nem gostava de gatos e, quanto a bombeiros, só quando lhe serviam para apagar o fogo…interior. Mas se o seu Cagueirão queria salvar gatos e chorava como uma menina de trancinhas e sardas na ponta do nariz agora que conseguiu o que queria, ela também estava feliz. Ou então eram apenas lágrimas de dor do aperto descomunal que aquele calmeirão de 2 metros lhe estava a dar…para gáudio de todas as Marias Cachuchas presentes.


P.S. – E este post é só para ti, porque é a forma mais estranha que arranjei para te dizer o quanto me orgulho de ti…
Hoje fazemos uma pausa nas seriedades do blog…porque, às vezes, há mesmo nexexidade!

quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009

Mulheres, tabaco... e o sobrinho do Freud

Sempre me perguntei, "mas porque raio tanto fumam as mulheres"? Será só para engatar os parvos dos homens? Ou será antes um hábito que se naturalizou como sinal da liberdade feminina? O símbolo de uma emancipação que durante anos foi restringida pelo homo-sapiens “versão troglodita”?

Pelos visto há quem diga que sim. No entanto, decidi colocar o bigode postiço do Poirot debaixo da minha penca e carregar na mão a lupa do Sherlock Holmes, apetrechando-me para ir investigar o caso.

Ora bem…
Antes de mais, quem é Edward Barnays (1981-1995)?
Nada mais, nada menos, é considerado um dos pais da actividade de Relações Públicas (ou actividade de Propaganda, melhor seja dito, pois esse eufemismo todo abrilhantado e modernaço, destinado a não remeter as nossas ideias para a manipulação nazi, a mim não me convence), tendo combinado as ideias de Gustave Le Bon e de Wilfred Trotter, sobre a psicologia das massas, com as ideias de psicanálise do seu tio… Sigmund Freud. Voilá!
Ou seja, foi um dos primeiros especialistas a tentar manipular a opinião pública usando o subconsciente das pessoas.

Voltando ao tema… Edward Barnays lembrou-se de fazer uma das suas experiências sociais com as classes populares dos EUA. Contratado por George Hill, presidente da American Tobacco Corporation, uma das grandes companhias tabaqueiras norte-americanas (a troco de uma belíssima e sumarenta maquia de verdinhas), Barnays teve a epifania de convencer as mulheres a fumar. Convém relembrar que, antes da Segunda-Guerra Mundial, a possibilidade de as mulheres fumarem era mais do que um tabu, especialmente se fosse feito em público. Mas eis então, que, a lógica capitalista ressoou: “Que raio, se as mulheres representam metade da população dos EUA, porque haveremos de estar a perder metade do nosso mercado”, pensou astutamente o presidente da tabaqueira, numa assumpção de lógica matemática que lhe fez tilintar o som das moedas aos ouvidos.

O sobrinho do Freud meteu as mãos ao trabalho e lá encontrou um método de quebrar o raio do tabu ditado pelo pretenso sexo forte. Pediu a um dos melhores psicanalistas dos EUA (também a troco de uma graciosas verdinhas), que descobrisse o que os cigarros significavam para as mulheres. “Os cigarros são um símbolo do pénis e do poder sexual masculino”, sentenciou o especialista, “e se for possível relacionar os cigarros com a ideia de desafiar o poder masculino, então as mulheres fumarão, porque assim terão os seus próprios pénis”, finalizou determinadamente. Parece-vos a loucura de um qualquer pervertido sexual? Hum… Vamos ver o que se seguiu.

Todos os anos, em Nova Iorque, existia um desfile nas ruas (a típica parada à americana), a que milhares de cidadãos acorriam para assistir (naquele tempo a televisão ainda não os tinha hipnotizado ao sofá). Ora bem, foi aproveitando esse teatro que Barnays criou outra grande encenação: Convenceu um grupo de jovens mulheres a esconderem cigarros debaixo das suas roupas, sendo que depois deviam entrar no desfile artilhadas com as ditas dissimulações. Estas, a um sinal de Barnays, retirariam os cigarros dos seus esconderijos interiores para os acender de forma dramática, em pleno desfile, chocando tudo e todos. Entretanto, o espertalhão Barnays informou a imprensa que um grupo de sufragistas femininas estavam a preparar-se para protestar pelos seus direitos nesse desfile, e que iriam acender… uma “tocha pela liberdade”. O astuto manipulador de massas sabia que os jornalistas e os fotógrafos estariam em matilha no evento, para captar esse momento único… e foi precisamente isso que aconteceu.

A frase estava feita e as fotos bem enquadradas, aparecendo em todos os cabeçalhos de jornais: uma foto de jovens mulheres sufragistas a fumar, encimada com a frase “tochas pela liberdade”. Liberdade e a tocha da liberdade (como na estátua)… dois dos símbolos mais americanos que existiam… eram demasiado poderosos para que não afectassem a opinião das pessoas. A notícia correu o mundo inteiro, tornando-se impossível que a opinião pública não se sentisse “sentimentalizada” com o heróico esforço libertador daquelas temerárias mulheres (o que não faz o dinheiro). Como é óbvio, o tumulto cresceu, deu voltas por entre os media e a opinião pública, até que finalmente… tornou-se socialmente aceitável que as mulheres fumassem. Era um acto simbólico que criava a forte ideia de poder e independência feminina… uma ideia que hoje em dia ainda persiste.

Não tardou a que Hollywood, e as suas belíssimas e famosas actrizes, propagandeassem o acto de fumar como um sinal da mulher independente, rebelde e fatal… Como é óbvio, qual não foi a mulher que não as quis imitar?

Bravo Barnays!!! Nem o duo Hitler-Goebbels teria conseguido melhor. Enganou metade da população mundial e encheu os seus bolsos, assim como os de uns quantos multimilionários ligados à indústria tabaqueira.
O raio do homem foi capaz de provar que era possível persuadir as pessoas a agirem de forma irracional, isto se houver uma ligação entre os produtos do mercado e os seus sentimentos e desejos emocionais. Daí que… mulher que mete um cigarro à boca e acende-o, sente-se e livre e independente! Toca a pegar num cigarro, fumarada adentro dos pulmões, polvilhem o ar com o cheiro e… viva a liberdade. E já agora, que se lixe o cancro... o que é isso comparado com o status social... a independência. Pfuu!

E esta é a verdade, por isso: mulheres deste planeta, por favor, mostrem definitivamente o que é mais evidente… que são mais racionais que os homens. Esta é a vossa hipótese!

Entretanto, tomem lá umas pérolazinhas do Youtube, para adornar a minha pseudo-revelação.
Um sinal do que a publicidade foi capaz de perverter… e daquilo que pode tentar emendar.
O último vídeo pode chocar algumas pessoas mais sensíveis, mas os dois primeiros só vão chocar a vossa inteligência.






sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009

Barbie world

"Life in plastic, it's fantastic!"

Infelizmente, a luta quotidiana de esticar as 24 horas do dia não tem sido ganha. Na lista de tarefas, os jogos são postos lá para o fim, quanto mais aqueles de “pedra, papel, tesoura”. Prioridades trocadas, eu sei…


Mas hoje a vontade de escrever ganhou (a sorte é que ganha sempre, mais tarde ou mais cedo).


Conheces a Barbie? Claro que sim. A bonequinha que todas as meninas tinham (têm ainda? Já nem sei!). A bonequinha com formas de mulher e cabelo loiro. A bonequinha que se despia e vestia, à vontade do freguês.


Eu adorava essas bonequinhas. Não tinha muita paciência para os nenucos chorões nem para as cozinhas de brincar. Também não gostava dos action-man, carrinhos, índios e polícias-miniatura. Mas gostava da Barbie. Por alguns anitos, pelo menos.


Agora, o que ainda guardo desses dias de criança são as roupinhas da boneca. Não as que vinham em caixas cor-de-rosa e custavam fortunas (ainda custam? provavelmente… Ou estão a ser afectadas pelos investimentos tóxicos do mundo “bê-a-erre-bê-i-é”?). Guardo as roupinhas que a minha avó, há uns anos valentes, fez para as minhas bonecas. E não são poucas. Uma caixa de sapatos cheia de roupinhas de Barbie.


Mas porque me pus eu a escrever sobre a Barbie? Simples, um dia destes, a fazer o célebre zapping (a eterna desculpa. Quantas conversas não começam com “estava eu a fazer zapping…) encontrei no Biography Channel a história da Barbie.


Conclusão principal: a Barbie foi o primeiro brinquedo a apostar em massa nos anúncios televisivos. Mais, o primeiro a dirigir-se especificamente às crianças. Já sabemos quem culpar pelos pedidos insistentes das criancinhas!! A Mattel!!


Tive formação em Comunicação, sei algumas coisinhas de Publicidade, Marketing e afins. Não demonizo a publicidade, certamente. Mas ela é, claramente, um fruto do nosso tempo.


Sim, o meu caro professor doutor da cadeira de Publicidade bem me disse que “a publicidade é essencial para a distinção do produto”, que sem ela “todos os produtos seriam de caixa branca e em tudo semelhantes”. Pois, MAS fazer de tudo para levar as criancinhas a quererem um produto banal e depois chagarem a cabeça aos paizinhos não é essencial, só para os grupos sedentos de lucros.


As crianças não têm a nossa capacidade de distinção entre ficção e realidade. Se um anúncio mostra uma miúda a voar com uns ténis novos, a nossa criancinha acredita piamente que vai voar. E não há discurso sensato que a convença do contrário. Pelo menos não enquanto ela estiver entretida a berrrar, chorar, bater com os pés e atirar com a sopa contra a parede para convencer os papás a comprar os ténis. Ou seja, os paizinhos compram, a criança vê que não consegue voar e atira os sapatinhos novos para debaixo da cama.


Ora, não é “um pouco”, digamos, desonesto para um adulto aproveitar-se da estrutura mental de uma criança para vender um produto? Forçar o consumo por premissas falsas? E onde estão as entidades reguladoras? Ah, já sei…a promover uma acção de sensibilização junto das crianças…patrocinada por quem? Pois…


(E aqueles anúncios contra o tabaco apoiados pela Tabaqueira nacional? Serei a única a pensar que isto cheira mal??)


Enfim, eu sei que a “boa” publicidade é aquela nos apela às emoções, a uma empatia. É aquela que provoca reacções instantâneas ao nível dos sentidos e da emotividade, sem passar pela racionalização. Porém, jogar ao “vamos pôr lá esta gente a PRECISAR de um massajador de unhas encravadas” com adultos é muito diferente ( e com consequências muito diferentes) do que fazer o mesmo com crianças.


A obsessão pelo consumo está já a recolher os seus frutos, na verdade. Mas os anúncios para as criancinhas continuam (e o lucro, calculo, também). Porque muitos pais preferem comer menos ao jantar do que fazer a desfeita à criança. O que não é de recriminar, dar mimos é humano. O que é de recriminar é mesmo a falta de recriminação de quem quer capital a todo o custo, não coma quem não comer.



segunda-feira, 29 de Dezembro de 2008

Transformação

"É óbvio que tem de acontecer uma revolução radical. A crise mundial exige-a. As nossas vidas também exigem essa revolução. Os nossos incidentes quotidianos, buscas, ansiedades pedem essa transformação. Os nossos problemas pedem que haja uma mudança. Tem de haver uma revolução fundamental, radical, porque tudo à nossa volta está em colapso. Ainda que pareça haver ordem, existe de facto destruição e uma lenta queda: a onda de destruição está constantemente a sobrepor-se à onda da vida.

Portanto, tem de haver uma revolução – mas não uma ideia baseada numa ideia. Uma revolução baseada numa ideia será meramente a continuação da ideia, e não uma transformação radical. Uma revolução baseada numa ideia traz derramamento de sangue, fragmentação, caos. Não se pode criar ordem a partir do caos. Criamos deliberadamente o caos; claro que depois não podemos criar ordem a partir desse caos. Não somos os ‘escolhidos de Deus’, para podermos gerar ordem a partir da confusão. Estamos perante um falso modo de pensar por parte daquelas pessoas que querem gerar mais e mais confusão para que depois possa existir ordem. Porque no momento em que estão no poder, elas assumem que sabem todas as maneiras de se produzir ordem. Vendo a globalidade de toda esta catástrofe – a constante repetição de guerras, o infindável conflito entre classes sociais e entre os povos, a enorme desigualdade económica e social, a distância entre os que estão felizes, os que não são incomodados, e aqueles que são apanhados pelo ódio, pelo conflito e pela desgraça – observando tudo isto, tem de acontecer uma revolução, uma transformação completa, não é verdade?

Será essa transformação, essa revolução radical uma coisa definitiva, ou será algo que acontece momento a momento? Sei que gostaríamos que ela fosse uma coisa final, porque é muito fácil pensarmos em termos de distância temporal. ‘Um dia seremos transformados’; ‘um dia seremos felizes’; ‘um dia encontraremos a Verdade’; entretanto nada acontece. Certamente que uma tal mente, pensando em termos de futuro, é incapaz de agir no presente; assim, essa mente não busca a transformação, está simplesmente a evitar a transformação. O que quer dizer transformação?

A transformação não está no futuro, nunca poderá estar no futuro. Ela só pode estar no agora, em cada momento. Assim, o que queremos dizer com transformação? É decerto muito simples: ver o falso como falso e o verdadeiro como verdadeiro; ver a verdade do falso e ver o falso naquilo que é aceite como verdadeiro.

[…]

Quando vemos que a diferença de classes é falsa, que isso gera conflito, infelicidade, divisão entre pessoas – quando vemos a verdade disso, essa mesma liberdade liberta-nos. A própria percepção dessa verdade
é transformação.

[…]

A mente que deseja uma transformação no futuro, ou que olha para a transformação como algo definitivo, nunca poderá encontrar a Verdade, porque a Verdade que existe momento a momento tem de ser descoberta sem a presença do passado; não há nenhuma descoberta através da acumulação. Como podemos nós descobrir o novo se transportamos o fardo do velho? Só através da inexistência deste fardo conseguiremos descobrir o novo.

[…]

A verdadeira felicidade é um estado de ser intemporal. Esse estado intemporal só pode acontecer quando há um grande descontentamento – não o descontentamento que encontrou um canal através do qual se escapa, mas sim o contentamento que não tem qualquer saída ou escape, que não mais busca realização. Só então, nesse estado de supremo descontentamento, poderá a Realidade mostrar-se. Essa Realidade não pode ser comprada, vendida ou repetida; ela não pode ser guardada nos livros. Tem de ser encontrada a todo o momento, num sorriso, numa lágrima, debaixo de uma folha morta, nos pensamentos errantes, na plenitude do Amor.

Onde existe Amor, há transformação. Sem Amor, a revolução não terá qualquer sentido e será meramente destruição, ruína e uma infelicidade cada vez maior. Onde há Amor há revolução, porque o Amor é transformação de momento a momento."


Jiddu Krishnamurti, O Sentido da Liberdade

pp. 268 a 270.

segunda-feira, 15 de Dezembro de 2008

Da Suméria até à Internet...

Há mais de 5000 anos os Sumérios criaram o sistema da escrita, uma das principais bases (senão mesmo a principal) da organização social desde então até agora. Comentaste, no último (e primeiro) post, como a escrita se constrói na defesa de uma forma de invencibilidade e imortalidade para o Homem. É a propagação de um nome, da história dos vencedores, a aniquilação e dupla humilhação para os vencidos (que será veiculada por dezenas, centenas, milhares de anos).

Forma de poder, exercício de manipulação e paradigma de verdade, a escrita sofreu a grande mutação da palavra impressa com a Bíblia de Gutenberg. Johannes Gutenberg, visto como o pai da imprensa e inventor dos tipos móveis na tipografia (apesar de, aparentemente, estes já serem usados de forma muito rudimentar na Europa), levou a drásticas e profundas modificações no papel da escrita, no modo como esta estruturava a sociedade e, consequentemente, na sociedade em si.

É um facto que desde a civilização da Suméria que são usados cilindros com o negativo do texto a imprimir (a versão mais rudimentar de imprensa que se conhece), mas Gutenberg, com o aperfeiçoamento dos tipos móveis e a sua reutilização, tornou possível a difusão da palavra escrita a uma escala nunca antes pensada.

Consequências? A reprodução maciça de livros tornou a cultura mais democrática e retirou-lhe o peso do ritual, do mito, do dogma. A difusão das palavras impressas de modo (vamos ousar dizer) simples, terminou com os monopólios de certas ordens e classes, com o centralismo do conhecimento. A propagação das “impressões” gutenberguianas levou a que a sociedade passasse por um processo de modificações, de aberturas e de transmissão de saberes como só visto quatro anos mais tarde (não pelos grandes mass media do século XX – cinema, rádio, tv – mas por algo que levou a uma revolução, a nível estrutural, de grau tão gigantesco como o da própria palavra impressa: a Internet).

Contudo, a imprensa teve também os seus senãos. De âmago essencialmente democrático, a palavra impressa serviu para espalhar ideologias, mentiras e crenças, de forma rápida e eficaz, com os caracteres estandardizados a assumirem lugares de novos deuses.

Por outro lado, o uso da tipografia, da máquina de escrever, do computador, cortou a ligação do autor com a sua obra, a ligação da obra com os seus leitores e, mais trágico, a ligação do autor com os leitores. Os caracteres, que assumem simultaneamente forma de deuses e de banalidades, não possuem qualquer pingo de humano, de pessoal. Destituíram-se do Eu e têm uma marca própria ao suprimir qualquer marca. A impessoalidade atingiu mesmo novos níveis com o ecrã a matar a folha de papel (mesmo que assuma as suas proporções virtuais no modo de visualização Word) e programas automáticos que transformam voz em palavras virtuais.

Se isto é o fim da função original da escrita? Não creio. A escrita existe para a finalidade que sempre existiu: fazer esquecer o Homem da sua mortalidade e alimentar-lhe o ego. Ao longo dos tempos, adquiriu vertentes democráticas, totalitaristas, egocêntricas, generosas…reflexo do Homem que lhe empresta o cunho, nada mais. Talvez o medium seja a mensagem, ou talvez a escrita seja o que de mais importante existe para estudar este bicho estranho que somos.

Marisa

P.S. - Infelizmente, não consegui manter a postura séria e vou ter mesmo de mencionar o episódio caricato de hoje em que descobriram novas armas de destruição maciça no Iraque: os sapatos voadores!!
De realçar, contudo, a forma física invejável de George W. Bush, armado em verdadeiro ninja do Texas. Qual Lucky Luke qual quê, o ainda presidente norte-americano têm os reflexos mais rápidos do Oeste e de Bagdad também...

terça-feira, 9 de Dezembro de 2008

A história repete-se…

Estou cansado, sinto-me aborrecido e frustrado, mas não é comigo próprio nem com as outras pessoas, nem quanto mais com o mundo em si. Estou desavindo com a história, com as suas vicissitudes, com o seu imortal tédio cheio de repetições. Poder, guerra, morte, fome, intolerância, pobreza, orgulho… a lista é tão vasta e sobejamente conhecida para estar a escrevê-la aqui de novo. Mas porque estou eu tão enfadado disto tudo? É por estarem a suceder todos os dias, a todo o momento… no preciso momento em que escrevo esta frase e a finalizo com um simples sinal de interrogação que nada resolve?

Há mais de cinco mil anos os Sumérios criaram o sistema universal do qual agora não imaginamos poder prescindir: a escrita. Diz-se que foram compelidos pelas necessidades da sua economia e da sua organização administrativa. Pergunto-me se não terão, também, sentido o medo de serem obliterados da história, esquecidos para sempre, obtendo desta forma a resposta para a imortalidade (se o corpo não pode viver para sempre, pelo menos que se imortalizem as ideias e conhecimentos que o ocupavam).

Nenhum rei ou sociedade (por melhor ou pior que sejam), deseja ser esquecido pelo futuro, tal como não conheço nenhum homem ou mulher que não queira ser lembrado pelos seus filhos e netos. Medo de sermos esquecidos, de acabarmos reduzidos a pó, confundidos com o esterco que pisamos todos os dias. Alguém se lembra, com clareza, das ideias e cultura que subjaziam às civilizações pré-sumérias? Claro que não, eles nada escreveram sobre si, acabaram esquecidos, e talvez os Sumérios tivessem essa noção. Porventura, esse foi um dos medos que os guiou até a escrita, essa ferramenta que guarda o passado. Penso que não saberemos dizer o que lhes ia na cabeça, para dizer que esta é uma verdade verosímil.

Mas o que aconteceu com o surgimento da escrita? Maravilhas, poderão muitos responder, eu incluido? Sim, é verdade, mas também trouxe muitos problemas. Ao escrever, estamos também a repetir-nos, a repetir aquilo que os outros nos disseram, a espalhar as mesmas ideias, a torná-las inalteráveis e a dar razões para os dogmas se fortificarem… estamos a enviar todo um estado de pensamento do passado para o futuro, a torná-lo perene, impassível de ser apagado. É bom não esquecermos, mas há coisas que jamais deviam ser ressuscitadas das tumbas do passado. Como podem as novas ideias e os novos estados de pensamento emergir se têm que estar sempre a lutar, desenfreadamente, com o passado, com aquilo que foi escrito para defendê-lo. É difícil ser-se criativo se estamos sempre a evocar as memórias do nosso passado, ainda para mais se ele está escrito, obrigando-nos a relembrar aquilo que a nossa consciência quis apagar.

Que vamos então fazer? Parar de escrever? Deixar de relatar os pensamentos e acções do presente e cingirmo-nos à descrição de assuntos técnicos, de ideias frias e puramente descritivas? Acho que a emenda seria pior. Deve depender de nós o uso que damos ao passado, há coisas que mais vale estarem esquecidas nos livros, passíveis de serem recordadas como mera recordação, para nos rirmos e vermos o quão patetas éramos no passado.

Entretanto, encontrei um daqueles velhos livros sobre a história dos Sumérios, encadernado numa capa de grafismo horrível e imprimido em caracteres iguais aos que o meu avó lia no jornal “O Século”. Não sei porquê, dei-me ao trabalho de o ler. Só por curiosidade, deixo aqui alguns dos provérbios e ditados que foram descobertos nalgumas placas de argila milenares. Impossível não nos revermos no presente, enquanto os lemos.

“Quem constrói como um senhor vive como um escravo;
Quem constrói como um escravo vive como um senhor.”

“Se o estado é fraco em armamentos, o inimigo não será afastado das suas portas.”

“Vais e conquistas o território do inimigo;
O inimigo vem e conquista o teu território.”

“Após a minha fuga ao boi bravo
A vaca brava enfrentou-me.”

“Podes ter um senhor, podes ter um rei, mas o homem que aterroriza é o cobrador de impostos!”

Foi desta forma que fiquei desiludido, por saber que cinco mil anos depois ainda atolamos os nossos pensamentos e forças nos mesmos problemas. Pouco mudou e quase todos continuamos a pensar da mesma forma, a evocar as mesmas preocupações. Cinco mil anos se passaram e ainda teimamos em ficar presos aos problemas do passado. Frustrante.

Tal como agora ainda pensamos num era dourada que há-de advir, também os nossos antigos nela pensavam, aliás, eles próprios acreditavam que já a estavam a viver:

“Era uma vez, não havia cobras, não havia escorpiões;
Não havia hienas, não havia leões,
Não havia cães selvagens, não havia lobos,
Não havia medo, nem terror,
O homem não tinha rival.

Era uma vez, as terras Shubur e Hamazi,
A Suméria de muitas línguas, a grande terra das divinas leis dos principados,
Uri a grande terra que tem tudo o que é próprio,
A terra Martu, que descansa em segurança,
O universo inteiro, o povo em uníssono,
A Enlil* numa língua fizeram preces.”
* O deus mais importante dos Sumérios.

Pelos vistos a era dourada deles acabou, e nós ainda continuamos a sonhar com a nossa. Sei que ainda haveremos de escrever sobre ela, para logo depois alguém, num futuro ainda mais distante, a evocar como uma lembrança do passado.

A história repete-se, nós seguimos atrás. Conseguiremos voltar a encontrar um novo caminho para galgar?